quarta-feira, 1 de abril de 2020

A Esfinge


   Decifra-me e eu me devoro

A quais haveres de mórbido fogo lida a guerra
debruada sobre o humano, a trama assegurada
a quem a trama...............................................................
........................................................................................

campo de chuvas ácidas, trovões de fogo
escorço na lente do olho, a criança queimada

esboço no olho do pai, o esgarço debruado
olho apagado, a criança escorçada

pálpebras caídas, desconsolo do pai
sobre o corpo, a criança debruada

pálpebras erguidas, visão do escombro
a morte no olho, a criança olha o nada

A quais haveres de mórbido fogo lida a guerra
debruada sobre o corpo, a criança esfacelada
aquém a trama

Curvaturas


Espiral de símbolos os olhos:
terreno me estendo terra
e me faço casa jungido ao solo
Geômetra do império escuro
pai mãe e filho o Espírito

me esculturo em janelas e portas,
os múltiplos da cor e da luz
entorno na quadratura dos vitrais
Cristal prismático os olhos
filho mãe e pai o Espírito

multiplico objetos no espaço,
desdobrado me estendo e me diversifico
espelho móvel do tempo no imóvel Eu
Geometria das lentes biconvexas
filha pai mãe filho irmão e irmã o Espírito

árvore casa sol árvore Espírito
árvore sol casa árvore é
Espírito janela porta janela vitral
vitral a janela porta vitral o Espírito
nas curvaturas dos olhos atrás

lá fora me contemplo dentro
espelho convergente
o móvel múltiplo no imóvel Eu
matéria pulsante dentro
santo é o Espírito

A lenda


Parente das Galáxias
dos meus olhos broto
abro-me em galhos, me faço árvore e me visto de sol,

formulo verdecências                        
me desdobro em leveza vertical
me faço mata
e sopro o vento em minhas folhas:

obra estética dos meu olhos as verdecências
nascem dos trechos anoitecidos de que Sou
vereda de essências e odores
o insabido poço de onde emerge a criação.

Unguifagia sonolenta


Arranco unhas ao meu querer deixar-me
alçar no embora ir longe e mais além
daqui que só me esfola, só grita alarme...
e alar fora a tudo que é cansaço a quem

o aquém de seu dorme exilado em porém
que vem de amoedar-nos em acre altar
em nós atar-nos cordas no chão do amém

visagem de vezo haver vem par em par
raspar-me o avesso em demanda, e ao meu desdém
unhas devoram toda a derme do amar

quando alçar essa derme o amplo domar,
o arar e o som da água der-me seu gene
germe a rufar ao que visto haverei mar
Hermes alado a alçar o longe e o além.






Corpo II



Estátua de armadura em osso egressa
De vísceras e sangue tinto em elo
Sarcófago terroso e estojo e essa
E a pele ao que parece te faz belo

Humano estar na viva luz do arpejo
Em sonhos de voar ao céu de anil
Sorver o belo anelo entre o sobejo
Giro do Orbe em sois que o olhar previu

E o tempo a semear erval de estrias
A furto enverga os pés e o rumo esgarça:
O olhar baço entrevê fagulha esparsa
Nos lábios murchos riso bambo expias,

E lavra tumba e domo e o manto entalha
Osso e pele o ataúde, essa a mortalha

Corpo I


Recinto esse antigo jarro e jazigo
Ínsito rubor de plasma transido
Sigo essa fonte inserta onde transito
Meu rio anverso e seu rito contíguo:

Ceramista esse quem me plasmou bilha
No jarro me enclausura, todavia
Viço rubro me infunde e a mim alia
O fogo e o verbo: exímia luz que brilha,

Líquido eu que arpeja em seu feitio
Liberto de toda malha humana onde
Habita tumular entre véus de exílio:

Sobre o espelho cristal de sua fronte
Traceja em ondas fluxas seu informe
Destino e lastro seu que em águas dorme

                                                                                        Vilma Silva



Poema grego


Além do alcance estão nossos destinos
Em cardá-los juntamos suas fímbrias:
O claro espelho embota as réstias sóbrias
Empana ciências e vaticínios

Reposteiros escondem repentinos
Na beira luz que auréola etérea expande
A faixa oculta além-luxuriante
D´além do alcance vêm nossos destinos.

Sempre haveis tecido artifícios lassos
Lavouras de bordados fugidios:
Três Fiandeiras fiam os desígnios

De inextricáveis urdiduras laços
E austeras rendas e novelos trinos
Além do alcance bailam os destinos