sábado, 22 de abril de 2017

O OLHAR Á BORDA DO MUNDO

....
Todos os homens sou
Os animais sou
Eu vegeto junto com as árvores
Comemos, deitamos, dormimos, amanhecemos
Deita-se o sol e eu me deito
Anoiteço e morro
Ao amanhecer sou o sol nascente
E a paisagem nasce na luz do meu nascer

....
Fora do eu não há mundo
O que não presencio dorme
Orbito o mundo que no meu olhar passeia
Orbita-me o mundo que vige dentro do meu olhar

Ser e ser somente a fibra do olhar
Nervos ópticos que me capturam
Mas não sou nervos ópticos:
Além deles eu me observo

....

Olho o olhar que vê
Depois do olhar o ver se dissolve
na terra onde o quando não há


quarta-feira, 5 de abril de 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Bebo-te nas taças do teu nariz

Bebo-te nas taças do teu nariz

Para Bento, que me ensinou:

no aproximar das narinas
cumprimentam-se os esquimós
para sorver os ânimas mútuos.

       exato silêncio roça o teu rosto
       auscultado por meu olhar atento
       além do teu verbo além-suposto
       sorvo-te nas narinas teu alento

       recolho-te os traços ancestrais
       ao corpo de teus sentidos expostos
       viajo rio adentro teus portais

       encontram-se os ânimas sobrepostos
       bebem-se nossas regiões anímicas
       fundem-se as nuas paisagens primas
                       


       Vilma Silva

sábado, 18 de março de 2017

Apagamentos

Apagamentos


rasgos de luz rutilam nas retinas
o mundo sela em si cenário mudo
as fatigadas horas ao contrário
do verso que arte em mim fez, sobretudo

o deserto que a mim pariu a sina
o brilho longe, meu retrato mudo
rasgado em tiras foscas de quem declina
a voz calada, a dor e meu escudo

dentro a sondar o quê se me defina
o que tanto me pôs em longa espera
veludo a desfiar dor e ruína

rasgado feixe em luto me exaspera
deponho ao pé dos santos o que aludo
as horas postas de meu verso mudo

***
Vilma Silva

Nuvoso

AS NUVENS
tensas
prenhas as nuvens adensam
enovelam nas brenhas o sol
céu espesso
opresso
silvos ruivos
uivos de leões
truões
A CHUVA
malha
anágua de alva bruma
espuma de águas
seu lavor:
lavar a penumbra
as plumas plúmbeas
opressa tumba do sol

***
Vilma Silva

Ontologia

ONTOLOGIA

ouvidos que ouvem,
olhos que veem
língua que degusta
nariz que cheira,
mãos que tateiam:
câmeras de captação do real
em meu corpo são
adoidadas lentes que enganam:
somos doidos por natureza
o real é apenas cenário e louca alucinação
os sãos aqueles que o são
levam o olhar à deriva
deserdados do ontem, do hoje, do amanhã
fora da rede do tempo
cheiram e degustam e ouvem
e tateiam os mundos salivantes
embriagados dentro odores dentro
extáticos dentro imagens dentro...
sãos no corpo insano são:
curandeiros do corpo pesado
curam-no na leveza aérea do nariz
no cetim dos olhos, no fogo da língua,
nas asas das mãos dentro ternuras
 corpo andante dentro mundo fora dentro
sãos no corpo insano
o ser despido e único são

***
Vilma Silva

sábado, 11 de março de 2017

Vida secreta de um lúcido insano

Vida secreta de um lúcido insano


Desliza por entre os dedos o mundo
Sou ampulheta
Sei em que ponto estamos da apoteose material
A nossa evolução fatal não nos deve assustar

O mar: palavra audível da extensão
O cosmo: palavra inaudível da vastidão
Sou lá

Bebo a vida e fico bêbado
A multidão dentro de nós
estamos comigo nesse isolado eus estamos
A vida bebo e fico bêbado



Vida secreta de um lúcido insano II

Mataram a beleza
Em algum lugar de mim estou moribundo
Ozíris despedaçado
Pedaços de mim voam ao vento
Morro de manhã e nasço ao anoitecer

quero o quê
A palavra impronunciável
Meu espírito chora nas noites
De tanto olhar estrelas e galáxias
Lá eu quero tocar
Sou lá.

O meu conceito de beleza?
Sou lá

Risíveis receitas torpes de ser
Não me peçam feituras de vida
Meu receituário está nos pergaminhos
eu me adentro
Lá onde mora o impronunciável feito:
eu mesmo no ato mesmo de estar sendo

O olhar de dentro vê a humanidade toda
Somos eus no todos nós
O todo nós somos eus
Multiplicado eu no espelho do tempo
viagem adentro galaxial
Sou aqui

Peço um riso concordância para o sou aqui
Alistem-se quantos queiram sou lá
multiplicado eu no espelho do tempo
O vasto império da nossa força:

O meu conceito de beleza?
Sou lá aqui