quarta-feira, 1 de abril de 2020

Manhã


Luz de ouro róseo véu de lume veio
Estender no azul o seu lavor louro
A noite alvejar, desbotar o anseio
Na faina febril bordar seu alvoro

Neste silêncio de linhas que envolve
O tecer das formas que a luz semeia
O verbo se faz arauto a quem ouve
Sua candeia a luminar-lhe a teia

O verso especular a lavra enleia
Da chama do dia a sua teia finge
Esse lume regresso por mão alheia

Retorna em espelho a esfinge etérea
Esconso demiurgo em fulgor cinge
O responso que habita a fulva esfera

Xeque-mate

   eu rei, viril eu:
   matei el rei viril!
                   (vs)

Agoniza o meu rei nessa oratória
de seivas ociosas e oferendas:
carreira e correria e rasgos, fendas
do culto comercial que devora:

Forja do velho Dédalo e seu rei,
touro sedento de minhas querenças
rasga nos dentes verbos e ciências,
A trama lexical que em mim sonhei.

Esse altar, cevadouro e meu labéu
imola em mim o falo que me infunde
vidências de minha materia mundi,

el-rei viril, farrapo de ruínas,
minha rainha mato nas retinas:
eu-rei, vermes devoram a revel.

Poema ao cavaleiro da minha figura




Ouço-te falar-me de trás das portas:
Silêncios, balbucios, delírios vão...
Nave de vozes das horas já mortas
Gravura na moldura da minha mão

Ando tuas orlas e os olhos tombas
De suspensas aras me olham teus ermos
Adentro teus breus floresta de sombras
E me navego em teus rios extremos:

Sou-te, anjo negro, de tuas horas
Só ao pé de tua chama indistinta
Bebi tua dor dobrada ao avesso:

Doble de velames da nau extinta
Lume presente de ausentes auroras
Línguas de fogo viço que entreteço.

Bandolins




abro-me em nave ao oceano mar em mim
adentro sensações transpostas ao que abarco
navegador informe ao transitivo barco
em que me carrego despido de lei e fim.

os fins mapeáveis desertei orla adentro
fora do humano raio e sítio congruente.
crio a personagem que esse dom me consente
e no medrar das ondas as águas desventro...

viajo a epopeia humana e o seu desterro
a tanto exílio alio ao som em tempo atento
vertido em voz afeita ao dom dos bandolins

mas essa tosca velha, a linguagem-marfim
ensandece meus mitos, aprisiona erros,
costura-me o mundo em retalhos nevoentos...

***

CONTRAPONTO

pouco vale a essa velha avara os seus fins
despeço logo a letra e jogo fora o rito
ouço cantar as vinhas em que me fito:
invertida me dobro ao dom dos bandolins

Corpo de dor




Em chama arde o mudo e ausente rosto
Sozinho grita anônimo no escuro
O infuso amor no abismo sepulto.

Nesse existir anômalo e oposto
Orbita o mudo afeto e atrás o vulto
Do ser que permanece nascituro.

Vibra esse reino infuso em sua ermida
Na era pré-verbal em dor tristonha;
Ao nada que de si se lhe aponha
Cobre-lhe o pó das águas refletidas;

A dor fetal engendra a voz fendida
Na imagem que a palavra dentro sonha
Rasgasse a teia breu de sua fronha
Visse ao avesso as vísceras da vida.

Eco



   para Claud e para Rit


sema e sêmen de estetas, pira acesa
as manhãs brancas brumas passageiras
coavam sois no andor de azuis esteiras
luzeiros entre o fogo da beleza:

eu cingia alegrias, eira e o arado
ciciava silêncios entre as orlas
e o tempo adulterou a cor das horas
teceu o manto turvo e a dor o fato:

para onde foste mais que não te vejo?
entre as horas agora o meu embate
verga o trote aos umbrais do meu anseio

velada entre beirais minha saudade
ecoa em triste escala seu solfejo
volteios de silêncio a mim alheio

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019